VIDA PROFISSIONAL


Fundador da Associação para o Planeamento da Família

Em Portugal, na época, as famílias debatiam-se com o problema da regulação da natalidade e o aborto clandestino aumentava. Decidiu por isso criar a Associação para o Planeamento da Família, na altura considerado impossível (Governo do Prof. Marcelo Caetano). Mesmo assim conseguiu. E o facto foi considerado tão importante que a International Planned Parenthood Federation (Londres), a que se afiliara, decidiu publicar a notícia no “The Times”. Seguiu-se uma intensa actividade de reuniões com as famílias e de conferências aos médicos por todo o Continente e Ilhas. Foi o primeiro utilizador da “pílula” contraceptiva, que tinha trazido dos EUA.

Os problemas da esterilidade eram também uma preocupação. Por isso, introduziu novos métodos de doseamentos hormonais, em colaboração com o Dr. A. Reis-Valle, o que lhe permitiu iniciar novos tratamentos de estimulação da ovulação com gonadotrofinas humanas (que recebia do Prof. Carl Gemzel, da Suécia) e a monitorização hormonal diária dos ciclos estimulados. Utilizou também pela primeira vez em Portugal o citrato de clomifeno que também tinha trazido dos EUA. O momento tinha também chegado para criar a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, que mais tarde afiliou à International Federation of Fertility Societies, quando foi secretário-geral adjunto dessa organização.


Intervenção no Ultramar

Entretanto foi mobilizado para a Guiné como médico-meliciano, onde permaneceu dois anos. Aí desenvolveu intensa actividade clínica e social. Instalou a nova Maternidade do Hospital Civil de Bissau, que funcionou de acordo com todos os padrões de qualidade. Deu formação a médicos e parteiras. Foi presidente da Cruz Vermelha da Guiné e por esse motivo desenvolveu grande actividade junto dos militares, da população e dos presos. Para melhor servir iniciou na Rádio de Bissau um programa de que era autor e locutor, os “Ecos da Cruz Vermelha”, para assim ampliar o âmbito da sua acção, o que teve grande impacte na população. Publicou em revistas estrangeiras vários casos clínicos raros, um dos quais mereceu ser mostrado num tratado de hérnias publicado por um médico da Clínica Mayo (EUA). Por estas contribuições foi louvado pelo Governador Geral da Guiné (Marechal A. Spínola) e pelo Presidente Nacional da Cruz Vermelha Portuguesa.

De regresso a Lisboa, voltou ao IPO. Foi com grande surpresa que verificou que o laboratório que instalara tinha desaparecido. Ninguém sabia o que lhe tinha acontecido... Protestou, reclamou, mas sem efeito. Por esse motivo, resolveu deixar de participar nas actividades clínicas e encerrou-se numa sala onde durante mais de um ano aproveitou o tempo para estudar e publicar.

Pensou então que seria útil voltar aos EUA para durante um ano se actualizar e dar início aos trabalhos de uma tese de doutoramento. Foi com uma Bolsa do Programa Fullbright e à sua custa, tendo deixado a família em Portugal, que trabalhou na Washington University (St.Louis, Mo.) e durante mais tempo na Faculdade de Medicina da Universidade de Jefferson (Filadélfia), onde foi nomeado Visiting Full Professor. Aí preparou trabalhos sobre a Síndrome de Stein-Leventhal.


Persona non grata...

De regresso a Portugal, contactou de novo a Cátedra de Obstetrícia e Ginecologia da FML, solicitando ao seu director que aceitasse ser seu orientador da tese de doutoramento como os regulamentos impunham. Com grande surpresa viu negada essa sua pretensão, porque o Catedrático declarava não ser  competente para o orientar... Mas, ainda mais importante, verificou que tinha passado a ser considerado persona non grata e que as portas se tinham fechado. Isso deveu-se, sem dúvida, a intrigas de alguém que estava na mira da carreira e que sentia poder haver um concorrente perigoso... Vários professores (Fernando Pádua, Torres Pereira) interferiram junto do Prof. Castro Caldas no sentido de não fazer bloqueios, mas de nada serviu esse apoio.

Decidiu então recorrer à Universidade Nova de Lisboa que estava na fase de instalação de uma Faculdade de Medicina. Pelo seu interesse nesse projecto convidou o Prof. George Harrel que tinha conhecido nos EUA quando visitou o Milton Hershey Medical Center (Hershey,Pa.). Era um perito em educação médica e planeamento de hospitais escolares que poderia ser de grande apoio para a UNL. Fez uma conferência na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa à qual não compareceu qualquer responsável convidado da UNL. A Comissão Instaladora também não manifestou interesse em o receber.

Manuel Neves-e-Castro teve ainda várias reuniões com a Comissão Instaladora e com o então Reitor Fraústo da Silva ficando com a impressão de que era bem-vindo. Por isso entregou um bem documentado Curriculum Vitae e aguardou, aguardou e aguardou. Como mais nada lhe tivesse sido dito, insistiu com o Reitor pedindo uma resposta. O Reitor tinha entretanto escrito a várias individualidades solicitando informações a seu respeito e recebeu várias respostas muito abonatórias, para além das que já constavam do seu CV.

Finalmente, o Reitor responde-lhe pedindo para não insistir com ele por estar a criar-lhe problemas com outras pessoas igualmente interessadas. Manuel Neves-e-Castro pediu-lhe que o informasse da natureza dos mesmos e das pessoas em causa, mas tal nunca viria a acontecer. Porquê? É um mistério que persiste até hoje... Depois de tudo isto a nova Faculdade de Medicina convidou para regente da Cadeira um seu antigo estagiário, de qualidade sofrível, que nem sequer tinha o título de especialista pela Ordem dos Médicos, nem qualquer CV ou qualificação para o lugar.

 

 

Regresso ao IPO

Voltando ao IPO, propôs um programa de colaboração com o Prof. Elwood Jensen com quem trabalhou no seu laboratório, em Chicago, e onde aprendeu a técnica de doseamento do receptor de estradiol que esse cientista tinha identificado pela primeira vez. Em Chicago havia poucos casos de cancro da mama avançado, ao contrário do que se verificava no IPO de Lisboa. Por isso o Prof. Jensen disponibilizava-se para enviar técnicos para Lisboa e a obter do NIH os necessários subsídios que lhe foram prometidos.

Apresentado o projecto ao então Director do IPO, Prof. Xavier Morato, com o apoio do Dr. Francisco Gentil Martins, que nele via a maior importância, o mesmo foi recusado pelo Director (apesar de não haver custos) com a justificação de que alguém lhe disse ser uma fantasia dosear receptores num “clima quente” como o de Lisboa. Só muitos anos mais tarde, com prejuízo para os doentes, esse “alguém” viria a aplicar a técnica.

Mas... parar é morrer. Era preciso continuar. Manuel Neves-e-Castro intensificou então a sua actividade clínica. Continuou a investigar através dos seus casos clínicos e a publicar.

 

Ensino da Ginecologia em casa antecede ida para o Brasil

Quanto ao ensino, resolveu organizar em sua casa, à noite, um Curso de Ginecologia para alunos interessados (E. Passos Ângelo, C. Santos Costa, José Maria Cardoso, Conceição Cardoso, C. Calhaz Jorge, Ana Bonança). Foram meses muito estimulantes para todos. Sem terem tido outro trabalho senão o dessas aulas, todos passaram os exames com distinção. Alguns entusiasmaram-se e seguiram a especialidade que hoje praticam com grande competência.

Em 1975 decidiu ir para o Brasil onde lhe tinha sido oferecida a posição de Coordenador de Pesquisas do Centro Luísa Gomes de Lemos dirigido pelo Prof. Campos da Paz. Aí permaneceu dois anos aliando à sua actividade científica, no Brasil e no estrangeiro, a actividade clínica e a docência como professor convidado da Faculdade de Medicina da Universidade Gama Filho (Rio de Janeiro).

Durante esse  tempo ajudou muitos médicos jovens a encontrar o seu caminho e ensinou-os a publicar. O caso mais reconfortante foi o de uma jovem médica que conheceu em Porto Alegre e que muito o impressionou pela sua inteligência. Tendo verificado que era ignorada pelos seus chefes ofereceu-se para lhe conseguir uma bolsa de estudo que lhe permitisse trabalhar com uma sua amiga, a Prof.ª Frederique Kuten. Tudo se conseguiu, felizmente! A Dra. Poli Mara Spritzer fez em Paris a tese de doutoramento, é actualmente catedrática da Faculdade de Medicina de Porto Alegre e autora de uma vasta bibliografia (PubMed). Valeu a pena!

Entretanto recebeu convite da Universidade de Chicago para ocupar a posição de full-professor de Ginecologia e Medicina da Reprodução. Aí se deslocou como Visiting Professor. Obteve o visto residente permanente (Green-card) e foi aprovado no exame do Educational Council for Foreign Medical Graduates (ECFMG) com elevada classificação. Porém, a decisão de se fixar definitivamente nos EUA suscitou vários problemas de ordem familiar. Era filho único de pais idosos e pai de sete filhos. Por isso, e antes de se decidir, resolveu explorar outras possibilidades, mas na Europa.

Recebeu vários convites, desde a Organização Mundial da Saúde, Universidade de Bona e até do Kuwait.

 

 

 Mudança para a Holanda

Inesperadamente é convidado a ir à Holanda para uma entrevista com o Director Médico da Organon International, que tinha sabido do seu interesse em regressar à Europa. Conhecendo o seu CV ofereceu-se para lhe criar uma nova posição de Senior Medical Advisor of Management, no sector de Research and Development, no programa de Medicina da Reprodução, com a função de inovar a investigação, propondo novos projectos, activando o interesse científico do staff e viajando pelo mundo para explorar novas pistas que pudessem vir a ser instrumentos terapêuticos na área da sua especialidade. Além disso, era dada permissão para de dois em dois meses passar duas semanas em Portugal para manter contacto com a sua clínica.

Esta proposta tão tentadora como inesperada, aliada a um salário e a segurança social generosos, não foi recusada. Por isso viveu cinco anos na Holanda, onde desenvolveu uma intensa actividade científica, da qual resultou que várias das suas ideias se tenham concretizado em medicamentos já introduzidos ou em vias de introdução no mercado farmacêutico. Em 1982, por razões familiares, regressou definitivamente a Portugal.

 

 

 Fundador da Sociedade Portuguesa de Menopausa

A sua área de maior interesse actual passou a ser a Menopausa. Sentindo a necessidade de informar a população e de formar os médicos, Manuel Neves-e-Castro funda a Sociedade Portuguesa de Menopausa (SPM), que afiliou à Sociedade Europeia de Menopausa, de que foi também fundador e em que serviu dois mandatos como vice-presidente, tendo sido posteriormente eleito seu sócio honorário. Criou o website http://www.spmenopausa.pt, onde mantém actualizados os conhecimentos. É também o autor do World Menopause Day, reconhecido pela OMS e celebrado em todo o mundo pelas Sociedades de Menopausa. Com a SPM, sente que abrangeu os vários problemas da vida da Mulher (planeamento familiar, esterilidade, menopausa).

Nos últimos anos tem escrito muitos artigos publicados em revistas internacionais (peer-reviewed) e capítulos de livros, a convite. Tem feito conferências, como convidado especial, em muitos países da Europa, América do Norte e América do Sul e Ásia. Organizou três simpósios internacionais sobre Menopausa, que publicou na Parthenon (Londres), e um outro, no mês de Outubro de 2004, com a participação dos mais destacados peritos americanos e europeus, cujas conclusões foram publicadas em “Maturitas” (81 Conclusions of the 3rd International Symposium of the Portuguese Menopause Society ).

É convidado habitual dos principais congressos internacionais para proferir conferências e key note lectures. Ao longo da sua vasta vida profissional recebeu vários prémios no estrangeiro pelos seus trabalhos científicos.

 

 

 Contribuições científicas

• Descreveu novos mecanismos do ciclo menstrual, que foram mais tarde confirmados por outros. (42 New Mechanisms in Menstrual Cycle Physiology)

 

• Demonstrou, pela primeira vez, que a hormona libertadora de LH (LHRH) se fixa no ovário, o que foi reconhecido por dois prémios Nobel: Profs. A. V. Shally e Roger Guillemin. (37 The effect of synthetic FSH-LH/RH on plasma FSH, LH and 17 beta estradiol in women under oral steroid contraception)

 

• Demonstrou, pela primeira vez, que a LHRH pode indirectamente inibir a secreção de estradiol pelo ovário, fenómeno hoje conhecido como “down-regulation”. (47 Response of plasma estradiol-17beta to synthetic FSH-LH/RH: a preliminary study)

 

• Demonstrou que a testosterona é biossintetizada em excesso pelos ovários do síndrome de Stein-Leventhal. (19 Biosynthesis of Testosterone by a Stein-Leventhal Ovary)

 

• Mostrou que os deciduomas traumáticos do útero de coelhas produzem uma substância luteotrófica, com actividade semelhante à prolactina. Actualmente a prolactina foi identificada por outros no endométrio humano. (8 L’endomètre de la Lapine à l’état normal et dans les cas de déciduome traumatique. Etude d’une fluorescence naturelle, 14 O Deciduoma Traumático da coelha)

 

• Mostrou que o formol altera o espectro de emissão da fluorescência natural dos tecidos. (9 L’influence du formol sur le phénomène de la fluorescence primaire des tissus)

 

• Identificou, por imunoelectroforese, que na região beta-globulina se identifica uma linha de precipitação que está presente no soro de doentes esquizofrénicos (assunto utilizado para a tese de doutoramento do Prof. Fragoso Mendes). (7 O diagrama imunoelectroforético do soro de esquizofrénicos,10 Estudo imunoelectroforético do soro de doentes mentais)

 

 

Um website de partilha

Manuel Neves-e-Castro sente que com uma vida intensamente vivida tem conseguido atingir os objectivos que definiu no início da sua carreira. Sente-se honrado por ter marcado a presença de Portugal nos fóruns internacionais da sua especialidade.

Sempre norteado pelas três máximas inicialmente referidas, manteve a força necessária para prosseguir e ainda hoje continuar, na ânsia constante pela aquisição e transmissão de novos saberes, pelo serviço às comunidades científicas, nacionais e internacionais, o que demonstra que sempre tem conseguido afirmar-se, mesmo sem ter ingressado no meio académico português, como um universitário e fomentador do conhecimento.

É a manifestação do espírito, e não necessariamente o título, que marca e projecta a vida de uma pessoa. Como referido no início, Manuel Neves-e-Castro “quis estar presente no mundo, e está”. E assim pensa continuar, não fosse este seu novo projecto – este seu website – exemplo disso mesmo.

 
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