MENOPAUSA

 

INTRODUÇÃO


Ainda me recordo da fama que teve em Lisboa, durante a última Grande Guerra, um médico alemão de origem judaica que aí se refugiou como tantos outros. Chamava-se Werner e recebia particularmente as mulheres portuguesas na sua residência, frente à Penitenciária. A sua fama derivava do tratamento que fazia com estrogéneos. Nessa época usava-se o Progynon sublingual e em gotas. Foi um sucesso que deu alívio a muitas mulheres que sofriam dos sintomas vasomotores da menopausa.

 

Nos EUA, entretanto, Fuller Albright estabelecia a relação causal do hipoestrogenismo pós-menopáusico com a osteoporose. Também nesse país surgem dois pioneiros da terapêutica hormonal com quem tive a honra de trabalhar: Edwin Hamblen, na Duke University (Durharn, North Carolina), e Robert B. Greenblatt, na Faculdade de Medicina de Augusta (Georgia). Os resultados eram excelentes. No entanto, as doses óptimas de estrogénios não estavam ainda determinadas. Não havia também epidemiologistas interessados que dessem apoio. E, como é habitual nestes casos, começavam a registar-se os primeiros efeitos secundários: aumento de peso, hipertensão, neoplasias da mama e do útero, que foram manifestados pela terapêutica estrogénica. Tanto bastou para que o alarme tivesse soado e ficasse, até hoje, na memória de muitos médicos e doentes. Estrogénio passou a ser sinónimo de agente cancerígeno e, como tal, proscrito.


Com o andar dos tempos, com melhores inícios diagnósticos e mais conhecimento científico da patogenia de doenças prevalentes na terceira idade, a terapêutica de compensação estrogénica volta a ser legitimada e os seus efeitos analisados com rigor científico, tanto no individuo como nas populações. Com a introdução da mamografia, da ecografia, da densitometria óssea, das análises dos lípidos, dos factores de coagulação, do doppler, etc., passou a ser possível estudar com exactidão o efeito do hipoestrodismo pós-menopáusico e da sua compensação terapêutica.
 

 

CONCEITO


A menopausa, que significa a cessação das menstruações, é um fenómeno fisiológico que se deve à redução gradual do funcionamento dos ovários. Estas glândulas deixam de libertar óvulos mensalmente e de produzir hormonas femininas, os estrogénios. O organismo deixa, assim, de estar exposto aos habituais níveis elevados de estrogénio e cria-se um novo ambiente hormonal que se designa por hipoestrogenismo. Antes da menopausa há doenças que se acompanham também de hipoestrogenismo, o que determina efeitos em vários órgãos e sistemas.


Na fase da menopausa, se houver uma redução rápida e intensa dos estrogénios, é natural que nestas mulheres haja sintomas muito mais exuberantes que nos casos em que o hipoestrogenismo se vai instalando lenta e progressivamente. Assim sendo, as mulheres que se encontram na primeira situação sentir-se-ão doentes, ao invés das que correspondem à segunda situação. As primeiras necessitarão de tratamento específico para alívio dos seus sintomas. As segundas só o farão se os seus médicos pretenderem fazer a prevenção de doenças que surgirão anos mais tarde em consequência do hipoestrogenismo.


É sabido que o aumento da esperança média de vida e a diminuição da mortalidade têm contribuído para um envelhecimento global da população. Como consequência, há uma percentagem cada vez maior da população feminina que está em pós-menopausa. Actualmente, as mulheres viverão cerca de um terço da sua vida em pós-menopausa. Além de novos problemas com que irão deparar-se, sob os pontos de vista psicológico, social e financeiro, irão sentir os efeitos da privação das hormonas sexuais femininas sobre vários órgãos. Isto resultará em riscos aumentados de doença ao nível cardiovascular, ósseo e psíquico.


Os tratamentos de correcta compensação hormonal permitem dar "mais anos às suas vidas e mais vida aos seus anos", como tem sido dito e provado repetidas vezes. Lamentavelmente, só cerca de 15% das mulheres que iniciaram um tratamento o mantêm após um ano, o que significa que a grande maioria da população feminina não está a ser correctamente tratada e protegida. Isto deve-se, sobretudo, à falta de informação e à desinformação. Neste aspecto, a responsabilidade cabe-nos a nós, médicos, porque não sabemos ainda dar a informação suficiente. 0 problema não se verifica apenas em Portugal.  



 
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