Terapêutica Hormonal


Há médicos que aconselham terapêutica hormonal de compensação enquanto outros a desaconselham. Em quem deve a mulher confiar? E quem não a faz, o que deve fazer?

 

Não se trata de uma questão de partidos: os “a favor” e os “contra”. Trata-se sim de se saber ou não do que se está a falar. Quando alguém diz que é “a favor” ou que é “contra”, o melhor será perguntar-lhe se é a favor ou contra a conservação da saúde, a qualidade de vida e a prevenção das doenças.


Em primeiro lugar devo esclarecer que não concordo com a designação de tratamentos hormonais de substituição. Isso é um erro conceptual que tem dado origem a muita confusão. Após a menopausa o que é normal é que haja uma grande diminuição dos níveis de estrogéneos. Isso pode ser a causa de vários sintomas em muitas mulheres e constitue um factor de risco potencial para futuras doenças ósseas (osteoporose) e cardiovasculares (angina, etc.). Um tratamento só é considerado substitutivo quando se destina a repor os níveis hormonais que seriam normais em determinada idade, o que não é o caso na menopausa fisiológica. Será substitutivo quando há uma menopausa precoce ou quando os ovários tiverem sido extraídos antes da idade habitual da menopausa. Portanto, após a menopausa fisiológica, não há tratamentos hormonais de compensação. Há, sim, tratamentos hormonais, quando indicados, do mesmo modo que há também outros tratamentos não hormonais.


A ideia de tratamento substitutivo pode fazer pensar na sua inevitabilidade como condição de saúde, o que não é verdade. Um tratamento hormonal feito após a menopausa é apenas uma opção se se considerar que é a melhor em relação a outras não hormonais. Retomando o que acima referi, não faz sentido dizer-se que se é a favor ou que se é contra. Essa questão resulta, como afirmei, de um falso conceito motivado pela designação “de substituição”. Por isso, os que se dizem de um lado ou de outro só estão afirmando que são a favor ou contra a obrigatoriedade desse tipo de tratamentos, por longos períodos, e sem uma grande certeza no resultado de uma análise de beneficio/risco.


O que está bem definido é a contra-indicação para os tratamentos hormonais: mulheres que tiveram ou têm doenças malignas da mama, doença hepática activa, flebites ou flebotromboses, doenças cardiovasculares ou cérebro-vasculares recentes. Quanto às indicações: o tratamento de afrontamentos, suores nocturnos, secura vaginal com dor durante as relações sexuais, o que se traduz numa melhor qualidade de vida já que também desaparece o humor depressivo, a irritabilidade, etc. No que se refere a tratamentos a longo prazo, se não houver contra-indicação, os tratamentos com hormonas sexuais após a menopausa contribuem para a prevenção primária das doenças cardiovasculares, da osteoporose, das doenças degenerativas do sistema nervoso central e do cancro da cólon. No entanto, se não for desejável ou possível este tipo de tratamentos, outros há actualmente com eficácia equivalente. Vale a pena acentuarmos que uma alimentação saudável (tipo dieta mediterrânica), o exercício físico regular e o não fumar têm um excelente efeito na prevenção dessas doenças, mais prevalentes após a menopausa.


Quanto aos riscos dos tratamentos hormonais posso afirmar que, desde que respeitadas as contra-indicações, não há razões para receios. Os benefícios globais ultrapassam largamente os riscos potenciais. Um estudo muito divulgado indica que para além de cinco anos de tratamento hormonal ininterrupto o risco de se diagnosticar um cancro da mama aumenta cerca de 50% ao fim de 15 anos. Isso significa apenas que em vez de se diagnosticarem apenas 6 casos de cancro da mama em 1000 mulheres não tratadas serão diagnosticados mais 3 a 6 casos em cada 1000 das que fazem tratamento hormonal. Acrescente-se que por cada caso de diagnóstico de cancro da mama (cuja mortalidade é de 20%) se evitam 6 casos de doença cadiovascular (cuja mortalidade é de 50%).


Conservar a saúde e evitar as doenças, contribuindo para uma boa qualidade de vida, é o objectivo principal da medicina actual em relação às mulheres a partir dos 50 anos.


Nem todas as mulheres necessitam ser tratadas com hormonas femininas e as que não quiserem ou não puderem ser submetidas a esses tratamentos podem também beneficiar de outras estratégias medicamentosas, sem esquecer, para umas e para outras, a grande importância de terem uma alimentação saudável, um peso certo e um exercício fisico adequado. Seja em que situação for, nenhum tratamento (hormonal ou não) deve ou pode ser recomendado sem que se tenham definido nitidamente os objectivos que se pretende atingir.


O médico recomenda. A mulher fará a sua escolha periódica, de ano a ano, conforme se sentir e quiser e em face do que o médico lhe tenha comunicado quanto a terem ou não sido atingidos os objectivos previamente estipulados entre ambos. Por tudo isto, é um disparate dizer-se que se é a favor ou contra os tratamentos hormonais após a menopausa. Uma tal posição só significa ignorância e má prática da Medicina.


Tudo dependerá do que estiver indicado e contra-indicado para melhor conservar a saúde e prevenir as doenças: O quê? Como? Quando? Quanto tempo?

Mais vale prevenir que remediar!

 
 
 
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